Observatório ligado à UFSM publica orientações de comunicação de risco, preparação e resposta ao El Niño
O Projeto de desenvolvimento institucional Observatório Brasileiro de Comunicação e Crise (OBCC) publicou orientações de comunicação de risco, prepração e resposta ao El Niño. O projeto da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) tem parceria com a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e Fundação Osvaldo Cruz (Fio Cruz).
Com mais de 3 anos de atuação, é considerado um dispositivo inédito no país e inovador na área o qual visa fomentar, a partir da perspectiva comunicacional, a cultura de prevenção e da gestão de riscos e de crises no Brasil. Acesse o e saiba mais sobre a atuação e a contribuição do projeto para a área.
O El Niño
Teve início em junho de 2026 o El Niño, fenômeno natural que se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico na faixa equatorial. Na interação com as mudanças climáticas, a exemplo do aquecimento global, os efeitos da sua atuação em todo o mundo tendem a ser mais intensos. A previsão é de que o El Niño atue no Brasil entre junho de 2026 e fevereiro de 2027, com potencial de ser o mais forte da história.
Cenário de atenção ampliada
As projeções disponíveis indicam um cenário de atenção ampliada. Ainda que existam incertezas quanto à intensidade final do fenômeno e à distribuição regional dos impactos, há possibilidade de que este episódio esteja entre os eventos mais intensos já registrados. Esse cenário exige preparação antecipada, monitoramento contínuo e comunicação pública clara, coordenada e baseada em evidências.
Nesse contexto, as orientações à sociedade não devem ser tratadas apenas como um alerta pontual, mas como parte de um processo permanente de preparação, resposta, atualização de informações e redução de riscos, considerando a evolução do fenômeno e seus efeitos combinados com as mudanças climáticas.
Aumento dos riscos
O cenário sugere aumento nos riscos relacionados a incêndios na Amazônia e no Pantanal, altas temperaturas nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, tendência de aumento dos riscos de desastres de origem hidrológica e geológica na Região Sul, associados ao excesso de chuva, além de episódios de secas e alta probabilidade de incêndios de vegetação nas Regiões Norte e Nordeste do país. Tendo em vista este panorama, o OBCC elencou algumas orientações para preparação e resposta aos impactos do El Niño.
Orientações de comunicação de risco, preparação e resposta
As orientações a seguir partem de uma perspectiva comunicacional e levam em conta uma visão interdisciplinar, visto que a gestão de riscos e de crises é um processo complexo que exige atuação conjunta e gestão integrada de múltiplas áreas especializadas.
Tais sugestões são voltadas à população, ao Poder Público e à Imprensa a fim de contribuir na preparação e resposta em casos de tempestades com granizo, incêndios florestais, rajadas de vento, deslizamentos de encostas, tornados, ciclones, inundações e enchentes.
População
– Cadastrar-se nos sistemas de alerta da Defesa Civil (SMS: enviar o CEP para 40199 por SMS, Telegram: pesquisar o contato Defesa Civil Alertas, Whatsapp: cadastrar o nº 6120344611 e interagir com o robô informando CEP);
– Ter em mãos um kit de emergência para 72h com itens de primeira necessidade, sobrevivência ou de importância para identificação: mochila contendo RG/CPF, chaves de casa, roupa extra, agasalho, dinheiro, óculos de grau, remédios, apito, sacolas plásticas, curativos, lanterna carregada ou com pilhas, água e itens de higiene básica;
– Informar-se pelos canais de comunicação oficiais dos governos e de outros órgãos oficiais envolvidos: Defesa Civil, Bombeiros, INMET, Cemaden, empresas de distribuição de energia elétrica, água e esgoto;
– Informar-se a partir de publicações de veículos de comunicação reconhecidos pela prática jornalística (impresso, digital, radiofônico, televisivo);
– Informar-se pelos canais oficiais de comunicação dos governos a fim de evitar cair em golpes de criminosos (informação de dados pessoais, depósitos em contas bancárias, entre outros);
– Não compartilhar informações inverídicas, sem checagem e sem apuração;
– Não compartilhar informações que não contribuam para ajudar as vítimas e as equipes de resgate e assistência;
– Compartilhar alertas oficiais para que as pessoas saiam das áreas de risco a fim de diminuir o número de resgates e concentrar os esforços das equipes;
– A população deve evitar registrar e postar imagens em redes sociais digitais apenas por entretenimento ou em busca de seguidores e curtidas, principalmente se houver crianças e idosos nas fotografias e vídeos;
– Seguir as orientações emitidas pelos órgãos oficiais, a exemplo da Defesa Civil.
Poder Público
– Instalar sala/gabinete de situação/crise a fim de coordenar os esforços de forma organizada e integrada entre governos federais, estaduais e municipais;
– Monitorar continuamente situações de risco para identificação, mapeamento e acompanhamento em tempo real;
– Coordenar a identificação de rotas de fuga e definir locais seguros, a exemplo de pontos de encontro ou abrigos temporários;
– Organizar abrigo(s) temporário(s) para receber com dignidade as pessoas atingidas (segurança, água potável, energia elétrica, alimentação, banheiro, cobertores), principalmente para crianças, mulheres, pessoas com deficiência e idosos;
– Acionar rede de voluntários e servidores previamente treinados e capacitados para situações de crises;
– Dispor de sistema de alertas eficiente e acessível, com informações claras e breves, em diversos dispositivos (TV aberta, TV por assinatura, SMS, rádios, aplicativos, redes sociais digitais);
– Emitir alertas em tempo hábil para que a população possa agir, indicando o que fazer, para onde ir e o que levar;
– Comunicar a população antecipadamente sobre rotas de fuga, pontos de encontro e abrigos temporários em caso de desastres;
– Seguir plano de contingência com as ações de resposta delineadas para casos de emergência;
– Designar porta-vozes para situações críticas, sejam eles prefeitos, secretários, assessores, governadores, presidente da República, ministros de Estado;
– Atender à imprensa, ao repassar informações e responder a questionamentos que contribuam para a cobertura da situação;
– Acionar líderes comunitários, sistemas de alto-falantes, sirenes, carros de som e rádio para alertar/avisar a população sobre algum risco iminente como alternativa à internet e outros meios que necessitam de energia elétrica.
Imprensa
– Estar atenta às notas e aos comunicados emitidos pela Sala de Situação e/ou Gabinete de Crise dos governos;
– Não compartilhar informações inverídicas, sem checagem e sem apuração;
– Compartilhar alertas oficiais para que as pessoas saiam das áreas de risco a fim de diminuir o número de resgates e concentrar os esforços das equipes;
– Auxiliar na verificação de fake news disseminadas na sociedade, a fim de contribuir no combate ao processo de desinformação;
– Relacionar e problematizar a cobertura jornalística levando em conta as mudanças climáticas, suas causas e consequências;
– Produzir conteúdo que informe e esclareça a população, a fim de evitar medo, boatos e dúvidas, facilitando a ação das pessoas em caso de necessidade de evacuação de áreas de risco;
– Abordar o desastre de forma responsável, evitando sensacionalismo, relativização ou espetacularização.
As orientações anteriores não contemplam ações de restabelecimento e recuperação visto que eventos climáticos decorrentes do El Niño já estão sendo registrados nos Estados brasileiros – a exemplo de chuvas em excesso, tempestades e altas temperaturas.
Importante: intensidade do El Niño não significa impacto proporcional em todos os territórios
A intensidade do aquecimento das águas do Pacífico Equatorial é um indicador relevante, mas não determina, de forma automática e proporcional, a gravidade dos impactos em cada região. Os efeitos observados dependem também da interação com outros fatores atmosféricos e oceânicos, como a temperatura do Atlântico, frentes frias, bloqueios atmosféricos, correntes de jato, ciclones, frentes estacionárias, Oscilação Antártica, Oscilação de Madden-Julian e outros sistemas de variabilidade climática.
Por isso, recomenda-se evitar mensagens alarmistas ou deterministas. A comunicação de risco deve reconhecer a gravidade do cenário, mas também explicar que os impactos concretos dependem do monitoramento contínuo e da atualização permanente das previsões de curto, médio e longo prazo.
Atenção por região e período crítico
A preparação para o El Niño 2026/2027 deve considerar os diferentes riscos regionais e seus possíveis períodos de maior atenção. A regionalização das orientações permite que governos, comunidades, imprensa, instituições, produtores rurais, empresas e organizações da sociedade civil adotem medidas proporcionais aos riscos de cada território.
Norte e Nordeste
Entre julho e dezembro de 2026, com atualização conforme os boletins oficiais, recomenda-se atenção especial à possibilidade de redução de chuvas, aumento das temperaturas, secas, pressão sobre o abastecimento de água, impactos na agropecuária e maior risco de incêndios de vegetação e queimadas.
As ações de comunicação devem priorizar orientações sobre uso seguro da água, prevenção de incêndios, cuidados com a saúde em períodos de calor extremo, proteção de populações vulneráveis e acompanhamento dos alertas oficiais.
Sul
Entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027, com atenção especial ao período de maior intensidade do fenômeno, recomenda-se monitoramento ampliado para chuvas intensas, inundações, enchentes, enxurradas, deslizamentos, vendavais, granizo, ciclones, tornados e outros eventos extremos.
As ações de comunicação devem priorizar alertas antecipados, rotas de fuga, pontos de encontro, abrigos temporários, evacuação preventiva de áreas de risco, comunicação comunitária e orientações claras sobre o que fazer antes, durante e depois dos eventos.
Sudeste e Centro-Oeste
No segundo semestre de 2026 e no verão 2026/2027, recomenda-se atenção para episódios de calor extremo, tempestades severas, incêndios de vegetação, impactos urbanos, interrupções no fornecimento de energia elétrica, pressão sobre serviços de saúde e alterações no abastecimento de água.
As ações de comunicação devem priorizar cuidados com a saúde no calor, prevenção de queimadas, atenção a temporais, proteção de crianças, idosos, pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua e demais grupos vulnerabilizados.
Monitoramento contínuo e comunicação baseada em evidências
Além do acompanhamento do El Niño, recomenda-se que órgãos públicos, imprensa e instituições envolvidas na gestão de riscos acompanhem continuamente boletins, alertas e notas técnicas emitidos por instituições oficiais, como Defesa Civil, INMET, Cemaden, INPE, Censipam, Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, órgãos estaduais de meteorologia, universidades e centros de pesquisa.
O monitoramento do El Niño deve considerar não apenas o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, mas também fatores complementares que podem amenizar ou agravar seus impactos em cada região. Entre eles, destacam-se a temperatura do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul, correntes de jato, bloqueios atmosféricos, ciclones, frentes estacionárias, Oscilação Antártica e Oscilação de Madden-Julian.
A comunicação à sociedade deve ser atualizada conforme a evolução dos riscos, com atenção especial a mudanças no padrão de chuvas, ondas de calor, estiagens, incêndios de vegetação, vendavais, granizo, ciclones, inundações, enxurradas e deslizamentos.
Sempre que possível, os alertas devem indicar com clareza:
- o que pode acontecer;
- onde pode acontecer;
- quando pode acontecer;
- quem está mais vulnerável;
- o que fazer;
- para onde ir;
- o que levar;
- quais canais oficiais acompanhar.
Para mais alertas, informações e orientações, acesse:
Defesa Civil Nacional – Defesa Civil Alerta
Defesa Civil RS – Avisos e alertas
Instituto Nacional de Meteorologia – Notas técnicas
Organização Meteorológica Mundial – Avisos antecipados para todos
Cemaden – Nota Técnica Nº 627/2026: El Niño 2026/2027 e impactos esperados no Brasil