IBGE começa pesquisa por telefone para ajudar no combate contra Covid-19

Começou nesta segunda-feira a coleta por telefone da PNAD Covid, uma versão da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, em parceria com o Ministério da Saúde. Cerca de dois mil agentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já começaram a manter contatos telefônicos com 193,6 mil domicílios distribuídos em 3.364 municípios de todos os estados do país.

No Rio Grande do Sul serão cerca de 12 mil domicílios a serem contatados via telefone mensalmente. Serão mais de três mil entrevistas semanais a serem realizadas por 153 agentes de coleta no Estado. Para definir a amostra da nova pesquisa, o IBGE utilizou a base de 211 mil domicílios que participaram da PNAD Contínua no primeiro trimestre de 2019 e selecionou aqueles com número de telefone cadastrado.

As entrevistas duram aproximadamente 10 minutos e os moradores que receberem o telefonema podem confirmar a identidade dos agentes de coleta por meio do site Respondendo ao IBGE ou do telefone 080072-18181, e informar matrícula, RG ou CPF do entrevistador.

Os primeiros resultados têm divulgação prevista ainda em maio. “Nosso cronograma de coleta vai depender da extensão da pandemia, mas planejamos divulgar os resultados semanalmente, às sextas-feiras”, explicou a coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, Maria Lucia Vieira.

Ela ressaltou que os dados para Brasil e grandes regiões serão disponibilizados semanalmente, enquanto as informações por estado serão mensais. A pesquisa vai revelar a quantidade de pessoas que tiveram os sintomas de Covid-19, como febre, tosse, dificuldade de respirar, falta de paladar e olfato, fadiga, náusea e coriza.

“Identificaremos a parcela da população que procurou atendimento e em quais tipos de estabelecimentos de saúde, dentre outras informações. Para os que não buscaram atendimento, vamos descobrir como trataram os sintomas”, explicou Maria Lucia Vieira.

Acompanhamento 

Nos casos de internação, será possível saber também se o paciente foi sedado, entubado ou colocado em respiração artificial com ventilador. Já nas situações em que não houve deslocamento até uma unidade de saúde, será perguntado se os moradores receberam, por exemplo, a visita de um profissional de saúde na residência ou se tomaram algum remédio com ou sem orientação médica.

A PNAD Covid também vai acompanhar as mudanças no mercado de trabalho neste período de pandemia, abordando questões sobre a prática de home office, os motivos que impediram a busca por emprego e os rendimentos obtidos pelas famílias. Todas as informações coletadas pelo IBGE têm sua confidencialidade garantida pela lei 5534/1968, que trata do sigilo da informação e garante que os dados só podem ser utilizados para fins estatísticos.

“Assim como na coleta presencial, o sigilo das informações dos moradores está garantido e são utilizados unicamente de forma estatística e agregada, sem identificação de nenhum deles. Os dados também não são entregues para nenhum outro órgão e seguem os Princípios Fundamentais das Estatísticas Oficiais da ONU”, afirmou Maria Lucia.

O diretor de Pesquisas do IBGE, Eduardo Rios-Neto, contou como o Instituto está lidando com o isolamento social e como foi o processo de elaboração da PNAD Covid.

“Determinamos o fim da coleta presencial em 17 de março e, desde então, começamos uma discussão com os técnicos sobre a continuidade das pesquisas, assim como o eventual desenvolvimento de outros produtos. Foi assim que começou a tomar corpo a ideia da PNAD Covid, uma pesquisa de qualidade desenvolvida em prazo tão exíguo, que só foi possível pela total mobilização de todas as diretorias do IBGE e da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence)”.

Pesquisa foi desenvolvida com apoio de especialistas de outras instituições

O IBGE está utilizando sua experiência em coleta por telefone de pesquisas econômicas, mas, para definir o melhor formato para a PNAD Covid, o corpo técnico recebeu também apoio de especialistas em amostragem e em pesquisas telefônicas de outras instituições.

O pesquisador colaborador voluntário da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) e ex-presidente do Instituto Internacional de Estatística (ISI), Pedro Luis do Nascimento Silva, afirmou que o levantamento permitirá a elaboração de estatísticas sobre o trabalho, renda e condições de vida da população em prazos curtos, essenciais para orientar a formulação, monitorar a implementação e avaliar os efeitos de políticas públicas emergenciais, entre outros aspectos.

“Será um poderoso aliado da sociedade, das diversas esferas de governo e da academia para medir e entender os múltiplos efeitos da pandemia sobre a população brasileira. Para que tenha pleno êxito, precisará contar com a adesão da população, respondendo como sempre fez ao IBGE em suas pesquisas presenciais, mas agora atendendo ao Instituto nessa nova forma de abordagem”, observou.

A coordenadora de Métodos e Qualidade do IBGE, Andréa Borges Paim, ressaltou que, assim como os demais institutos produtores de estatísticas oficiais no mundo estão adaptando suas pesquisas em caráter experimental para acompanhar os impactos da pandemia na economia e na sociedade como um todo, essa iniciativa do IBGE é extremamente importante e desafiadora.

“A equipe envolvida na elaboração da PNAD Covid buscou essas iniciativas internacionais, assim como a expertise e boas práticas das pesquisas nacionais que realizam coleta por telefone para assegurar sua qualidade”, disse.

O diretor de Amostragem no Survey Research Center do Institute for Social Research na Universidade de Michigan, Raphael Nishimura, por sua vez, esclareceu que a PNAD Covid oferecerá dados da maior qualidade possível dada todas as restrições devido ao curto espaço de tempo para o planejamento e operacionalização da pesquisa, de forma a responder prontamente as necessidades de informação da população brasileira frente aos desafios trazidos pela pandemia.

“Compartilhei a experiência do DataSenado em pesquisas telefônicas com a equipe do IBGE. Enfrentar a pandemia de forma inteligente e efetiva exige informação confiável, algo que a PNAD Covid irá fornecer ao país nesse momento de incerteza e imprevisibilidade. Esse também será um marco metodológico importante na história das pesquisas no Brasil, pois seus resultados poderão balizar e servir de referência para todos os pesquisadores do país”, revelou Marcos Ruben de Oliveira, estatístico responsável pelas pesquisas do Instituto de Pesquisa DataSenado, do Senado Federal.

O professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e especialista em amostragem com PhD em estatística pela Universidade de Southampton, Marcel de Toledo Vieira, avaliou que a estratégia de utilizar a amostra da PNAD Contínua na PNAD Covid é muito acertada. “Se conhece muito bem o desenho amostral da PNAD Contínua com todas as suas qualidades e a possibilidade de produção de resultados com uma qualidade muito boa. É uma alternativa que permitirá a continuidade de estatísticas oficiais no Brasil durante esses meses que vêm pela frente”.

Receio 

As medidas de distanciamento social adotadas no Rio Grande do Sul impactaram no trabalho dos pesquisadores do IBGE. Sem poder realizar as entrevistas presencialmente desde a segunda quinzena de março, os funcionários passaram a trabalhar remotamente. A nova metodologia representa um desafio aos profissionais, que enfrentam a desconfiança e o receio dos entrevistados em responder às perguntas por telefonema.

Conforme o IBGE, as dificuldades para apurar dados do segundo trimestre indicam que as informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD C) que é o carro-chefe das pesquisas do IBGE sobre emprego, renda e outros dados da população brasileira, podem ficar prejudicadas.

É o que alerta o coordenador da PNAD-C no RS, Walter Paulo de Sousa Rodrigues. “A coleta de dados é importantíssima para a pesquisa para que qualquer ação que seja tomada em relação ao mercado de trabalho, economia, e vida em geral da população. Só vamos ter um planejamento eficiente se tivermos informações”, enfatizou.

“Estamos enfrentando dificuldade muito grande”, completa. Rodrigues explica que apesar dos contratempos registrados no final de março, os dados do primeiro trimestre da PNAD-C, divulgados em 30 de abril, não sofreram impacto em função da mudança de metodologia. “Conseguimos as informações e dados de maneira eficiente”, observou.

Em função da pandemia, ele ressaltou que os números do segundo trimestre devem revelar com precisão as consequências do isolamento social no mercado de trabalho. Para manter em andamento as pesquisas, foi preciso reduzir o questionário dos entrevistados e preservar o núcleo básico, que envolve, entre outras coisas, mercado de trabalho e rendimentos. “Outras pesquisas pegam apenas as empresas, mas apenas a PNAD-C consegue apurar como está o mercado informal”, destacou. No Rio Grande do Sul, o IBGE conta com 150 funcionários para fazer as pesquisas.

 

 

fonte Correio do Povo

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