Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSM/Cachoeira realiza atividade na Área Indígena Araxá Ty na Br 153

O Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSM Campus Cachoeira do Sul realizou, nesta semana,  uma atividade na Área Indígena Araxá Ty, localizada às margens da BR-153 em Cachoeira, como parte da disciplina Projeto V.

A visita marcou a apresentação à comunidade dos projetos desenvolvidos pelos estudantes ao longo do semestre e consolidou um processo de construção coletiva baseado na escuta, no respeito aos saberes ancestrais e no diálogo entre universidade e comunidade.

Orientada pelos professores Diego Willian Nascimento Machado e Laline Elisangela Cenci, a disciplina foi desenvolvida a partir da aproximação com o território e da compreensão de que o projeto arquitetônico deve considerar as relações entre cultura, paisagem, memória e modos de vida. A experiência proporcionou aos estudantes uma vivência extensionista, aproximando o conhecimento técnico dos saberes tradicionais da comunidade indígena.

Durante o semestre, acadêmicos e moradores construíram conjuntamente um processo de investigação sobre a história e a memória da aldeia, as formas tradicionais de ocupação, as tecnologias construtivas, a relação com a natureza, as dinâmicas de circulação e a percepção da paisagem. Esse trabalho permitiu compreender o território como espaço de identidade, ancestralidade e continuidade cultural.

Com base nesse processo, os estudantes elaboraram propostas de requalificação da Escola Indígena Tape Mirim e de sua inserção na área da aldeia, considerando aproximadamente dois hectares de implantação. Os projetos tiveram como referência diretrizes da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), reinterpretadas de acordo com as especificidades culturais da comunidade Araxá Ty, valorizando sua organização social, seus modos de ensinar e aprender e sua relação com o território.

O programa arquitetônico foi concebido para atender uma comunidade formada por cerca de 60 indígenas, entre eles 32 crianças, priorizando uma organização em escala humana e flexível. Em substituição ao modelo convencional de salas de aula, as propostas organizaram os espaços em núcleos destinados à infância, aos jovens e aos adultos, além de uma sala de recursos e memória, voltada tanto ao atendimento educacional especializado quanto à preservação da cultura indígena.

Os projetos também contemplaram espaços comunitários integrados ao cotidiano da aldeia, como cozinha coletiva, refeitório aberto, áreas de convivência, espaços esportivos e ambientes destinados à produção colaborativa. As propostas incluíram ainda laboratórios, espaços para comunicação digital e ambientes planejados para integrar práticas sustentáveis aos processos educativos interculturais.

Durante a visita, os estudantes apresentaram as propostas por meio de maquetes físicas, pranchas síntese e modelos digitais tridimensionais interativos. A comunidade também pôde acessar os projetos em ambiente virtual por meio de QR Code, visualizando a implantação das edificações, sua relação com a topografia, a vegetação e as construções existentes.

Mais do que apresentar soluções arquitetônicas, o encontro representou um momento de devolutiva e reconhecimento da contribuição da comunidade para a construção do conhecimento acadêmico. A atividade reafirmou o compromisso da UFSM com uma extensão universitária baseada na participação social, na escuta qualificada e no respeito aos diferentes modos de produzir conhecimento.

Para a acadêmica Maria Clara Rodrigues, a experiência reforçou o papel social da arquitetura.

“Foi um projeto engrandecedor, repleto de desafios e, acima de tudo, muito humano. Conhecer a Aldeia Araxá Ty e aprender um pouco com sua cultura foi uma das maiores demonstrações de onde a arquitetura pode nos levar. Os projetos da Escola Tape Mirim carregam a preocupação e a sensibilidade com a comunidade em cada decisão, desde a escolha dos materiais até a organização dos espaços, buscando valorizar a identidade local e atender às necessidades de seus moradores.”

A estudante indígena Maísa Gonçalves também destacou a importância da iniciativa para a comunidade.

“Obrigada por desenhar minha aldeia. Estou muito feliz. Nosso sonho é melhorar a aldeia.”

Para o professor indígena Jair Gonçalves, o projeto representa muito mais do que a elaboração de uma proposta arquitetônica.

“Este não é apenas um projeto de arquitetura; é um monumento ao afeto, à coletividade e à valorização da nossa cultura Guarani. Não se trata apenas de erguer paredes, mas de acolher histórias, respeitar a ancestralidade e desenhar o futuro das crianças e da nossa comunidade. Agradecemos profundamente à professora Laline e a todos que se envolveram neste projeto. Vocês sempre serão bem-vindos para construirmos juntos esse sonho maravilhoso.”

A diretora da Escola Tape Mirim, Lucia Helena Caetano, ressaltou que o projeto representa a concretização de um sonho construído coletivamente pela comunidade indígena.

“O projeto Arquitetura Escolar em Foco garante a realização de um sonho idealizado pelo cacique Roberto e sua comunidade indígena. Ou seja, o reconhecimento da Aldeia Araxá Ty como um espaço integrado à vida comunitária, à espiritualidade, aos saberes tradicionais e às práticas culturais. Agradecemos a contribuição, a participação e o envolvimento dos professores e acadêmicos no fortalecimento da identidade indígena, ouvindo as necessidades, criando possibilidades e apresentando caminhos. Muito obrigada.”

Segundo os professores Diego Willian Nascimento Machado e Laline Elisangela Cenci, iniciativas como essa evidenciam o papel da universidade pública na articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Ao promover o diálogo entre o conhecimento acadêmico e os saberes tradicionais, o Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSM Campus Cachoeira do Sul contribui para a formação de profissionais comprometidos com a responsabilidade social, a sustentabilidade e a construção compartilhada do conhecimento.