Velho (novo) rádio: comunicação que nunca morre e se reinventa

O rádio está presente na vida das pessoas há muitas gerações. Por meio dele, acompanhou-se guerras, campeonatos de futebol e pandemias. Não é à toa que, em pesquisa realizada pelo portal brasileiro Tudoradio, a maioria dos visitantes responderam que o meio é o veículo mais confiável quando o assunto é a Covid-19. No total, 84% dos participantes da enquete o consideraram como uma fonte com credibilidade sobre assuntos relacionados à crise sanitária.

Em outro estudo, realizado pela Kantar Ibope Media, há dados que ilustram a paixão dos sulistas pelo rádio. O veículo impacta 85% dos moradores do Sul, o que configura o maior alcance entre as regiões do Brasil – com um tempo médio de consumo de quatro horas e 10 minutos. Entre as regiões metropolitanas analisadas em todo País, a Grande Porto Alegre se destaca entre as com mais ouvintes: 85% dos entrevistados declararam ouvir rádio e com média diária de quatro horas e 21 minutos dedicados ao bom e velho rádio.

Adaptação

Aliás, o que é rádio para você? Já passou o tempo em que o meio era remetido a um bom e velho aparelho com válvulas, transmitido pela frequência AM. Hoje, aliás, são raras as emissoras que se valem dessa amplitude modulada e há diversos incentivos à migração ao FM. Isso porque vem aí o 5G e, com ele, uma tecnologia de ponta. E o rádio vai ficar para trás? Claro que não. Enquanto há quem não desgrude do seu radinho de pilhas colado ao ouvido, há também quem escute no computador, celular e tablet, tanto veículos tradicionais, quanto radiowebs – transmitidas pela Internet.

Na mesma pesquisa do Kantar Ibope Media, realizada em 2021, foi apontado que o rádio comum ainda é preferido, com 80%, entretanto, o consumo pelo celular aumentou em relação ao último ano: passou de 23% para 25%. Em casa (71%), no carro (24%), durante trajetos (8%) e no trabalho (2%) são os locais citados por quem acompanha o veículo. Em relação ao on-line, 10% declarou ter ouvido rádio pela internet nos últimos 30 dias. Entre os ouvintes de radioweb, o celular é o aparelho favorito para o consumo (66%), seguido pelo computador (37%) e por outros equipamentos (8%).

Fiel Companheiro

Para Luiz Artur Ferraretto, professor de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e coordenador do Núcleo de Estudos de Rádio (NER) da mesma instituição de ensino, o rádio continua sendo um dos meios de comunicação preferidos e de mais confiabilidade das pessoas porque, graças à portabilidade do radinho de pilha e, hoje, do celular, acompanha as mudanças. “Essa sensação de ser um companheiro é reforçada pela experiência única que o rádio proporciona ao permitir a realização de uma tarefa qualquer em paralelo à recepção da mensagem.”

Presidente do Sindicato das Empresas de Rádio e TV do Rio Grande do Sul (Sindirádio) e da Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão (Agert), Roberto Cervo Melão concorda com Ferraretto.  Para ele, o setor vive o que faz e assim leva a todos cantos dos Municípios a notícia real e instantânea. “Entretenimento, informação, música, esporte e opinião fazendo, assim, o dia a dia das pessoas, encantando a todos, tornando-o sempre um verdadeiro companheiro. O rádio possui intimidade e confiança com o ouvinte”, apontou.

Afinal, o que é rádio? 

Que estamos na era dos podcasts e outros tipos de tecnologia com áudio, não há a menor dúvida. Mas tudo isso pode ser considerado apenas e simplesmente “rádio”? Melão analisa que, caso sejam produzidos por empresas ou profissionais íntegros e confiáveis, podem, sim, ser reconhecidos como tal. Entretanto, desde que cumpram com as premissas básicas da boa comunicação.

Ferraretto, especialista na área e autor de livros sobre o meio, não enxerga da mesma maneira. Na visão dele, ao natural, o podcast poderia ser o passo seguinte do rádio, o qual considera como uma instituição social, constantemente modernizada pela forma como as pessoas consomem conteúdo. “No entanto, poucas emissoras compreenderam as possibilidades oferecidas pelo podcast, conteúdo que emula a linguagem do próprio rádio”, opinou.

Para o profissional, o resultado consiste na maioria dos veículos radiofônicos terem deixado espaço para que produtores independentes, estações de TV e portais ocupassem um espaço que seria delas. “Estações de rádio têm a infraestrutura e, em tese, o pessoal para produzir podcast, mas deixaram e seguem deixando o podcast de lado. Como consequência, estão permitindo que o podcast se desenvolva em paralelo, como uma nova instituição social”, decretou.

Rádio do futuro

Ferraretto prevê para os próximos anos uma volta ao rádio com uma faixa de recepção apenas, devido à migração ao FM. Todavia, o jornalista enxerga que, hoje, há “um enorme marasmo criativo em função de salários excessivamente baixos e de falta geral de investimento”, algo que, segundo ele, não é trazido pela pandemia. “Emissoras optam por alugar espaços para igrejas, desqualificando sua programação, ou se tornam integrantes de rede. Ao se associar a redes, esquecem do mercado local. E rádio é fundamentalmente local”, apontou ele, que teme que, nesse quadro, agravado pela pandemia, algumas outorgas sejam devolvidas para o governo.

Segundo o professor, já está ocorrendo esse processo em pequena escala, com emissoras que desistiram da migração da sua estação em AM, por já duplicarem há mais tempo o sinal em algum canal de FM. “Na prática, aquela estação de AM poderia ser uma nova em FM. Há ainda a conversão de algumas rádios a porta-vozes institucionais de governos, o que é péssimo a curto e médio prazos para a democracia e para o próprio negócio radiofônico.”

Melão, por sua vez, é mais otimista, ao apontar que, mesmo com o advento de outras plataformas, o rádio se manteve como o principal veículo. “E assim será por muito tempo”, confia.

Fonte: Coletiva.Net
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