Concretizada primeira adoção pelo aplicativo da Justiça Gaúcha

Posso apertar o coração?, pergunta ela.

– Não apertou ainda!?, indaga ele.

Essa conversa rápida definiu o destino de Suiany Meotti e Marcelo de Azevedo Zatar. O coração a que ela se refere é o botão “Interesse em adotar”, do Aplicativo Adoção, que o casal apertou quando viu os vídeos e as fotos dos irmãos Kauany, 12 anos, e Kauã, 11. “No vídeo, eles disseram que o sonho deles era ser feliz. Achei isso encantador. Não era um carrinho de controle remoto ou ir para a Disney, mas a pureza de ser feliz e de ter uma família”, conta Suiany. Essas quatro vidas foram entrelaçadas pelo app, lançado em agosto do ano passado pelo Poder Judiciário gaúcho em parceria com a PUCRS e o Ministério Público, sendo a primeira adoção concretizada a partir da ferramenta.

Suiany e Marcelo já estavam habilitados no cadastro Nacional de Adoção (CNA) desde 2016 – buscavam uma criança de até 2 anos de idade, não faziam objeção em relação à cor ou a doenças tratáveis -,  quando viram na televisão uma reportagem que anunciava a criação do Aplicativo Adoção. “No dia do lançamento (10/8/18), eu estava muito ansiosa”, lembra a Administradora de Empresa. “A gente se olhou e cada um pegou o telefone até que conseguiu baixar o aplicativo”, acrescenta Marcelo.

Deixa o amor te surpreender: Aplicativo concretiza primeira adoção
Ao ver reportagem sobre lançamento do app, casal baixou o aplicativo e ampliou perfil da idade dos futuros filhos
(Fotos: Mário Salgado)

Foi Suiany quem viu primeiro o perfil de Kauã e Kauany. Ela não teve dúvidas e ligou rapidamente para o marido: “Achei os nossos filhos!” Marcelo, que se considera mais cauteloso do que a companheira, pensou: “Filhos? No plural? Não esperava que seriam dois.” Pediu calma, mas confessa que já se pôs a planejar como seria a vida com duas crianças.

Eles lembram que não houve uma reflexão profunda acerca do assunto. Mais impulsiva, ela confessa que estava ansiosa para concretizar o interesse pelos irmãos. “Perguntei ao Marcelo: Posso apertar o coração? Ele, sabendo como eu sou, respondeu surpreso: Não apertou ainda?” E foi assim que o casal deu início à jornada que os levaria até os filhos.

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Kauany e Kauã olhando o álbum de fotos em que o casal se apresentou aos irmãos

“Não teria trocado o perfil se não fosse o aplicativo”

O primeiro passo foi alterar o perfil que haviam estabelecido junto ao CNA. Sobre isso, Suiany destaca a importância do aplicativo: “Quando queremos adotar, não temos acesso a muitas informações. O fato de poder ver as crianças, ouvi-las, isso nos liga muito a elas. Eu, com certeza, não teria trocado o meu perfil se não fosse o aplicativo”, afirma a mãe.

O casal caprichou em um álbum de fotos enviado às crianças, no qual se apresentavam. Junto, uma cartinha carinhosa com um convite irrecusável: “Perguntamos se eles queriam nos adotar como pais”, recordam.

Após, passaram por entrevistas junto à equipe técnica do 2º Juizado da Infância e Juventude de Porto Alegre, até que houve o primeiro encontro entre os quatro, no Foro Central, no dia 1°/11/18. “Fizemos camisetas com quebra-cabeças estampados. Nas nossas, faltavam duas peças. Nas do Kauã e da Kauany, havia uma peça só. Eles seriam as peças que faltavam nas nossas vidas”.

Seremos uma só família

Depois, veio um piquenique, almoços até que as crianças começaram a frequentar o novo lar. No dia 22/11/18, a Paramount Pictures promoveu em Porto Alegre o pré-lançamento do filme “De repente uma família”, que trata de adoção tardia, e a nova família foi uma das convidadas do Tribunal de Justiça para assistir à sessão. A essas alturas, os laços estavam mais do que selados. Nesse dia, os pais dariam a grande notícia aos filhos:

Kauã/Kauany,
A partir de sexta-feira, dia 22/11/18, não levaremos mais vocês de volta ao abrigo.
Seremos uma só família, morando junto, dormindo e acordando todos os dias na mesma casa.
Te amamos muito!
Papai 
e Mamãe

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Notícia de que crianças seriam adotadas foi dada após a pré-estreia do filme “De repente uma Família”.
A sessão foi cortesia da Paramount Pictures, em parceria com o TJRS

A guarda provisória havia sido concedida. O choro dos quatro abraçados representava o fim de uma procura e o encontro de pais e filhos. “É um carinho, um amor, inexplicáveis. Eles cuidam de mim, da gente. E nós, deles. É muita reciprocidade”, destaca a mãe, que sonhava em adotar uma criança desde a adolescência.

A química entre os quatro foi instantânea. “Somos muito parecidos. Eles entendem nossas brincadeiras, carinhos, conversas. Foi tudo muito rápido”, diz ela. Na semana passada, quando receberam a ligação do 2° JIJ, informando que a sentença de adoção havia saído, a emoção tomou conta da família. Marcelo, o mais comedido, caiu no choro.

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Juiz Charles Maciel Bittencourt entrega à família cópia da sentença que concedeu a adoção

Nos últimos quatro meses, tem sido assim, uma sucessão de choros de felicidade e de descobertas emocionadas. Um encontro de almas entrelaçadas com uma forcinha da tecnologia.

Na sala de jantar, enquanto contam as suas histórias para a reportagem, brincam de montar um pequeno quebra-cabeça. O jogo, que faz parte da rotina por integrar a todos, se compara ao momento vivido por eles. O quebra-cabeça daquela família, agora, está completo. Não falta mais nenhuma peça.

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Quebra-cabeça completo: agora não faltam mais peças
(Foto: Arquivo Pessoal)

Sobre o app

Aplicativo Adoção tem por  finalidade de aproximar possíveis pais e filhos do coração e incentivar a flexibilização dos perfis desejados.

A ferramenta traz vídeos, fotos, desenhos, sonhos e expectativas de dezenas de crianças e adolescentes que aguardam ser adotados no Rio Grande do Sul. Por outro lado, representa a oportunidade de pessoas já habilitadas e que estão na fila do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) acabarem com a espera e se tornarem mães e pais.

app está disponível para download gratuito nas lojas Google Play e App Store.

 

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