Fóssil de réptil que viveu antes dos dinossauros é descoberto em Paraíso do Sul

Um paleontólogo da UFSM publicou nesta quinta-feira (20) um estudo no periódico científico Scientific Reports descrevendo uma nova espécie de réptil fóssil oriundo do município de Paraíso do Sul. A descoberta revela o primeiro registro brasileiro de um grupo chamado de Gracilisuchidae, o qual era conhecido apenas na Argentina e China.

Antes do surgimento dos dinossauros, os ecossistemas foram dominados por precursores dos mamíferos e répteis de diversas linhagens. Dentre essas linhagens, uma das mais diversas foi a que posteriormente deu origem aos jacarés e crocodilos. Contudo, durante o Período Triássico, essa grande linhagem foi muito mais diversa do que é atualmente, com muitas formas terrestres ocupando o papel de predadores de topo de cadeia, enquanto outras desenvolveram couraças com espinhos para se proteger. Fósseis desses répteis são registrados em sítios fossilíferos do Brasil. Entretanto, um dos grupos mais enigmáticos dessa antiga linhagem ainda não havia sido registrado no país. Isso mudou quando o paleontólogo da UFSM Rodrigo Temp Müller, notou um fóssil diferente em meio a uma doação de materiais recebida pelo Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica (Cappa) em janeiro de 2024, a qual foi cedida pelo entusiasta da paleontologia Pedro Lucas Porcela Aurélio.

Paisagem do Triássico Médio-Superior do Sul do Brasil mostrando um grande dinossauro se alimentando da carcaça de um animal menor enquanto dois pequenos lagartos competem por restos de alimento
Paisagem do Triássico Médio-Superior do Sul do Brasil mostrando um grande “Prestosuchus chiniquensis” se alimentando da carcaça de um dicinodonte enquanto dois indivíduos de “Parvosuchus aurelioi” competem por restos de alimento (Ilustração: Matheus Fernandes Gadelha)

Revisando os fósseis recebidos, o paleontólogo da UFSM selecionou exemplares para iniciar o trabalho de preparação, que consiste na remoção do fóssil de dentro da rocha que o reveste. Depois de algumas horas de preparação, partes da cintura pélvica (popularmente conhecida como bacia) foram reveladas. Entretanto, o paleontólogo destaca que o momento mais emocionante do processo foi quando a região da órbita do animal se revelou após a remoção de uma camada de rocha. Nesse momento, ficou claro que o crânio daquele organismo também estava preservado.

Após “libertar” o fóssil da rocha, iniciou-se o processo de diagnose. Trazendo uma série de características incomuns, foi possível constatar que aquele fóssil pertencia a um animal ainda desconhecido para o Brasil. Porém, o paleontólogo sabia que havia fósseis com características similares em outros lugares. Exemplares descobertos na Argentina e na China, os quais pertenciam a pequenos répteis predadores, possuíam muitas características compartilhadas com a nova descoberta. Esses animais fazem parte de um grupo chamado de Gracilisuchidae, uma das muitas linhagens de répteis que existiram durante o Período Triássico. Sabe-se que os únicos parentes próximos viventes dos gracilissuquideos são os jacarés e crocodilos, entretanto, diferente das formas viventes, os gracilissuquideos foram animais completamente terrestres, com os membros situados diretamente abaixo do corpo. Eles existiram entre 247 e 237 milhões de anos atrás, ainda antes do surgimento dos dinossauros.

foto colorida horizontal mostra no detalhe duas mãos sob uma luminária manejando um pedaço do fóssil
Fóssil de “Parvosuchus aurelioi” durante o processo de preparação (Foto: Janaína Brand Dillmann)

Um pequeno predador

Preservando um crânio completo, parte da coluna vertebral, cintura pélvica e membros posteriores, o novo fóssil recebeu o nome de Parvosuchus aurelioi. O primeiro nome significa “Crocodilo pequeno”, já que o fóssil pertenceu a um animal que teria atingido apenas um metro de comprimento, enquanto que “aurelioi” presta homenagem a Pedro Lucas Porcela Aurélio, pela sua paixão pela paleontologia e prospecção, a qual levou à descoberta do fóssil em questão.

Conforme Aurélio comunicou à equipe do Cappa/UFSM durante a doação, o material foi encontrado em uma localidade situada no município de Paraíso do Sul. Portanto, o Parvosuchus aurelioi torna-se o primeiro fóssil único do município. A localidade fossilífera que produziu os fósseis é composta por rochas com aproximadamente 237 milhões de anos, uma idade que representa a transição entre o Triássico Médio e o Triássico Superior.

Com base na forma dos dentes, é possível determinar que o Parvosuchus aurelioi se alimentava de outros animais. Além disso, a constituição leve do esqueleto revela que ele foi um animal veloz. Porém, com apenas 1 metro de comprimento, o Parvosuchus aurelioi não foi capaz de caçar os grandes herbívoros que existiram 237 milhões de anos atrás no Rio Grande do Sul. Essas grandes presas faziam parte da dieta de outros predadores muito maiores, como o Prestosuchus chiniquensis, que chegava a atingir até sete metros de comprimento. O Parvosuchus aurelioi teve que se preocupar em procurar presas menores. Essa descoberta é particularmente interessante porque até o momento não havia fósseis tão pequenos de membros da linhagem que deu origem aos crocodilos em camadas com essa idade no Brasil.

Gracilisuchidae no Brasil

O primeiro fóssil de um gracilissuquideo foi descoberto na Argentina e descrito em 1972. No ano seguinte, um animal similar foi descrito para a China. Anos mais tarde, em 2001, outro gracilissuquideo foi descoberto na China. Após este, nenhum outro fóssil inequívoco de Gracilisuchidae foi registrado em outros países. Assim, depois de mais de duas décadas sem novos achados, o Parvosuchus aurelioi volta a chamar a atenção para esse grupo de répteis tão peculiar. Ainda se sabe pouco sobre a biologia dos gracilissuquideos. Contudo, um dos aspectos interessantes sobre eles é que nenhum membro desse grupo chegou a atingir grande tamanho corpóreo, chegando no máximo a alcançar um metro de comprimento. Além disso, os fósseis inequívocos mais recentes do grupo têm cerca de 237 milhões de anos. Para se ter ideia, os fósseis mais antigos de dinossauros são encontrados em rochas com aproximadamente 230 milhões de anos.

Mas a descoberta do Parvosuchus aurelioi também lança luz sobre outro fóssil brasileiro. Em 2022, uma equipe de pesquisadores brasileiros apresentou o Maehary bonapartei, um réptil com cerca de 30 centímetros de comprimento que foi descoberto no município de Faxinal do Soturno, Rio Grande do Sul. Na época, acreditou-se que o Maehary bonapartei fosse um membro do grupo que deu origem aos pterossauros (um grupo de répteis voadores que existiu durante a Era Mesozoica). Já em 2023, um outro estudo sugeriu que esse réptil pudesse ser um gracilissuquideo.

foto colorida horizontal de um homem de barba segurando à frente um pequeno fóssil. A imagem dele está um pouco desfocada
Paleontólogo Rodrigo Temp Müller com o fóssil de “Parvosuchus aurelioi” (Foto: Janaína Brand Dillmann)

No novo estudo apresentando o Parvosuchus aurelioi essa hipótese é corroborada. As datações do sítio fossilífero em que o Maehary bonapartei foi descoberto indicam uma idade de 225 milhões de anos. Dessa maneira, o Parvosuchus aurelioi e o Maehary bonapartei nunca conviveram, sendo separados por mais de 10 milhões de anos. Essa é uma informação interessante, já que se novos achados venham a confirmar que Maehary bonapartei foi mesmo um gracilissuquideo, o grupo pode ter existido na região que hoje é o Brasil por um longo intervalo temporal, algo que ainda não foi observado para esse grupo em outros lugares do mundo.

Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica

Os restos fósseis do Parvosuchus aurelioi, assim como uma série de outros fósseis, estão depositados no Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa), um centro de pesquisa da UFSM que fica localizado em São João do Polêsine. O centro conta com uma exposição de fósseis que pode ser visitada sem custo.

O estudo foi conduzido pelo paleontólogo da UFSM Rodrigo Temp Müller. A pesquisa recebeu apoio do CNPq. O artigo intitulado “A new small‑sized predatory pseudosuchian archosaur from the Middle‑Late Triassic of Southern Brazil” foi publicado no periódico “Scientific Reports” e pode ser acessado gratuitamente pelo link.

Fonte: Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da UFSM