Progresso do País, depende de menos desigualdade, diz maioria dos brasileiros

A maioria¬† dos brasileiros (86%) diz que o progresso do pa√≠s est√° diretamente ligado √† redu√ß√£o da desigualdade econ√īmica entre ricos e pobres, e 94% concordam que os imposto pagos pela popula√ß√£o devem ser usados em benef√≠cio dos mais pobres. Os dados s√£o da segunda edi√ß√£o da pesquisa encomendada pela Oxfam Brasil ‚Äď organiza√ß√£o independente e sem fins lucrativos ‚Äď ao Datafolha, divulgada nesta segunda-feira (8).

Questionados sobre a tributação, 77% dos entrevistados defenderam o aumento dos impostos cobrados das pessoas muito ricas para financiar políticas sociais, ante 71% em 2017, quando foi feita a primeira pesquisa.

O presidente do Conselho da Oxfam Brasil, Oded Grajew, diz que as pessoas percebem que os impostos t√™m a ver com sua qualidade de vida e que √© preciso olhar para a tributa√ß√£o como uma forma de redistribuir renda. Segundo Grajew, existe percep√ß√£o de que h√° injusti√ßa na distribui√ß√£o tribut√°ria e de que os ricos devem pagar mais: “√Č uma maneira tamb√©m de reduzir a desigualdade‚ÄĚ, disse. Para ele, a pesquisa mostra descompasso entre o que as pessoas consideram importante ‚Äď a redu√ß√£o da desigualdade como forma de progresso ‚Äď e a exist√™ncia de pol√≠ticas p√ļblicas com esse objetivo.

‚ÄúNas pol√≠ticas p√ļblicas, n√£o √© um assunto que realmente ganha relev√Ęncia, que seja discutido como eixo central, e que devia ser, porque o Brasil √© o nono pa√≠s mais desigual do mundo. Todos os pa√≠ses que melhoraram de vida, que t√™m qualidade de vida, todos eles, sem exce√ß√£o, t√™m a redu√ß√£o da desigualdade como eixo central das pol√≠ticas p√ļblicas‚ÄĚ, afirmou Grajew.

Ele exemplificou com a discuss√£o em torno das reformas fiscal e da Previd√™ncia. ‚ÄúA √ļnica coisa que se fala na reforma da Previd√™ncia √© reduzir o d√©ficit p√ļblico, mas n√£o se fala da redu√ß√£o ou do aumento da desigualdade. Quando se fala de reforma fiscal e tribut√°ria, fala-se da simplifica√ß√£o e n√£o se fala da forma de se redistribuir a renda.‚ÄĚ Grajew lembrou que a Constitui√ß√£o brasileira, na primeira p√°gina, diz que o dever do Estado √© reduzir desigualdades e que isso n√£o est√° sendo levado em considera√ß√£o.

“Pobre n√£o tem chance‚ÄĚ

A faxineira Ana Rodrigues apontou desigualdade nas oportunidades que tem o jovem que nasce na periferia e o que nasce em um bairro mais rico. ‚ÄúTem mais pobre do que rico. Muito pobre. Brasil √© um pa√≠s de desigualdade. Os ricos t√™m mais chance, pobre n√£o tem chance, n√£o‚ÄĚ.

Ao calcular quanto custa viver na capital paulista, Ana disse que, para sair da pobreza, a renda do trabalhador precisa chegar a R$ 2 mil. ‚ÄúPara deixar de ser pobre, uma pessoa tem que ganhar uns R$ 2 mil e pouco, pelo menos, para comer. A√≠ d√° para comer, mas sal√°rio m√≠nimo n√£o d√°, n√£o‚ÄĚ, afirmou a faxineira.

A pesquisa mostrou tamb√©m a baixa ades√£o dos entrevistados ao projeto de um Estado M√≠nimo para o Brasil, j√° que 84% consideram obriga√ß√£o dos governos diminuir a diferen√ßa entre os muito ricos e os muito pobres – em 2017, o percentual estava em 79%. Al√©m disso, 75% das pessoas consultadas, apoiam a universalidade do ensino p√ļblico fundamental e m√©dio, e 73% defendem a universalidade para atendimento em postos de sa√ļde e hospitais.

Para Oded Grajew, a percep√ß√£o de que o Estado √© respons√°vel pela redu√ß√£o da desigualdade √© um sinal positivo, j√° que o Estado tem essa fun√ß√£o de regula√ß√£o. ‚ÄúO Estado nasceu para isso. Voc√™ tem um mercado em que impera a lei do mais forte e, se deixar solto, aumenta a desigualdade. O Estado nasceu exatamente para reequilibrar a sociedade, para fazer uma sociedade mais justa, por meio das pol√≠ticas p√ļblicas, da educa√ß√£o p√ļblica de qualidade para todos, de sa√ļde, de habita√ß√£o e da pol√≠tica econ√īmica.‚ÄĚ

‚ÄúQuem precisa do Estado s√£o as pessoas mais pobres, que n√£o t√™m dinheiro para pagar por um servi√ßo particular. Quem usa o SUS [Sistema √önico de Sa√ļde], a escola p√ļblica, a seguran√ßa p√ļblica, s√£o as pessoas de menor renda. O mercado √© importante, mas precisa de regula√ß√£o do Estado, √© preciso que o Estado fa√ßa com que o mercado atenda √†s necessidades da popula√ß√£o‚ÄĚ, acrescentou.

Discriminação

De acordo com o vendedor de milho Jos√© Bonif√°cio Santana, o Brasil √© um pa√≠s desigual e discrimina mulheres e negros. ‚ÄúEscuto falar muito sobre isso. Tem ainda essa diferen√ßa. Tem muita gente que, por causa da cor da pele, [√© discriminada]. E, na verdade, n√≥s somos todos iguais.‚ÄĚ Para reduzir a desigualdade entre ricos e pobres, Santana disse que √© preciso investir em educa√ß√£o, em primeiro lugar. Em seguida, em sa√ļde e emprego. ‚ÄúArrumar um jeito de abrir as portas do emprego.‚ÄĚ

Ainda segundo a pesquisa, 64% dos brasileiros afirmam que as mulheres ganham menos s√≥ pelo fato de serem mulheres ‚Äď em 2017, eram 57%. J√° aqueles que concordam que a cor da pele interfere no n√≠vel de rendimentos aumentou de 46% para 52% no mesmo per√≠odo.

Em relação à raça e gênero, Oded Grajew ressaltou que os brasileiros têm percepção de que há diferenciação contra mulheres e negros, e é importante que a discriminação não seja encarada como normalidade.

‚ÄúAs coisas s√≥ mudam quando as pessoas acham que aquilo n√£o √© normal. Quando havia escravid√£o, as pessoas achavam que aquilo era normal. As mulheres n√£o votarem era normal. [S√≥ teve mudan√ßa] quando houve uma percep√ß√£o de que n√£o era normal. √Č normal voc√™ ter 20 ministros homens, duas mulheres e nenhum negro, quando a maioria da popula√ß√£o brasileira √© mulher e negra? Isso seria inconceb√≠vel em qualquer pa√≠s‚ÄĚ, afirmou.

fonte Agência Brasil